terça-feira, 28 de julho de 2015

O Poder do Discernimento – Conversas com a Deusa Atena


A deusa Atena 
Nós, humanos, às vezes nos confundimos com máquinas; estamos tão concentrados nos afazeres minúsculos do dia a dia (que roubam toda nossa energia), que esquecemos que somos meros mortais, não vamos durar para sempre e deveríamos aproveitar melhor o nosso tempo na Terra para crescer e aprender.

Afinal, acordar correndo, engolir qualquer coisa, passar 8 horas num trabalho que nos esgota, voltar para casa ver novela e dormir não parece ser sinônimo de felicidade para ninguém. Parece que andamos hipnotizados, guiados para produzir e consumir – sem tempo para cumprir o nosso real propósito de olhar para dentro, melhorar o nosso interior, nos conectar com a energia superior, olhar para fora e ajudar os outros.

A vida não deveria ser simplesmente passar 35 anos num emprego que mal se suporta e sonhar com a aposentadoria para ser feliz. Deveríamos ser felizes, coerentes e satisfeitos em fazer o melhor possível a cada momento. Fazer de cada ação nossa uma escolha responsável que leve à realização, à satisfação, com consciência de que todo ato é mais um passo em frente na longa caminhada rumo à plenitude.
Tendo o objetivo de crescimento lá na frente, cada km nesse caminho já é percorrido com alegria e felicidade, porque sentimos que estamos no comando da vida, sintonizados com nossos sonhos e lutando por eles.

Fácil falar, claro. Mas como se começa esse caminho? Como dar o primeiro passo?

Talvez possamos voltar “um pouco” atrás no tempo e olhar para as lições dos antigos gregos. Ouvir a voz da deusa Atena – que nesse mundo caótico e barulhento, parece quase um sussurro. Portanto, apuremos nossos ouvidos.

Atena, deusa da sabedoria, das Artes, da Estratégia e da Justiça no panteão grego, nos ensina muito sobre o discernimento e sua importância. A deusa nos ensina como pesar e avaliar para reagir com sabedoria às situações que a vida nos coloca. E surpresa!: ela nos ensina como fazê-lo.
Barbie inspirada em Atena 
Atena chama a atenção para a importância de ampliar nossa visão geral – de si e do todo, de todas as coisas à nossa volta. Quanto mais estreito é o seu mundo, mais você julga o outro – e lembre-se, você é um reles mortal, tem olhos mas não vê muito mais longe do que o próprio umbigo e o dos que fazem parte do seu círculo próximo – já a Justiça é cega, como diz o senso-comum. Mesmo de olhos vendados, enxerga bem mais longe que qualquer um de nós.

Porque a sua visão não vem dos olhos, mas da consciência.
coruja, um dos símbolos da deusa
O discernimento é uma das capacidades mais importantes a ser desenvolvida pelos humanos. Por um lado, podemos nos perguntar se ver, entender, avaliar e poder ter um pensamento claro sobre as situações seria “hubris” – presunçoso – da nossa parte. Mas convenhamos, se nascemos com essa capacidade e ela pode facilitar a vida de todos ao nosso redor, por que não desenvolvê-la?

Às vezes me pergunto: por que as pessoas, de modo geral, têm tão pouco discernimento? E isso independe de seu grau de instrução acadêmica; pós-doutorandos, estudantes do ensino básico, adultos, idosos, quase todos nós temos a tendência para olhar para tudo em pedaços pequenos, partidos, parcelas mínimas de realidade, pequenos grupos de ideias. Prestamos atenção na árvore e não vemos a floresta (e muitas vezes ela está queimando).
O porquê dessa nossa tendência à “visão seletiva” pode ser resumida em uma palavra, velha conhecida nossa: Neurose. Se a neurose é a arte de distorcer a realidade à nossa volta, para “tentar caber no seu sonho” como já dizia Cazuza, então como desenvolver uma visão clara se tudo que queremos é não encarar a verdade? Se queremos (e às vezes acreditamos que precisamos) nos embrenhar na fantasia, na ilusão – até que aquilo que ignoramos aparece da pior forma, somatizado em doenças, relacionamentos doentios, atos falhos desastrosos, etc?

Enrolado em si mesmo, o neurótico não quer a clareza nem a simplicidade; não percebe que pensar com limpidez e objetividade não é “abdicar da fantasia”– é uma forma objetiva de tornar o sonho realidade, em vez de entortar a realidade para fazê-la encaixar no sonho.
Atena com seus símbolos: o elmo e o escudo
Ter discernimento não significa ser sisudo, ou ter falta de humor ou imaginação; é sim enxergar e reunir todos os recursos para tomar as rédeas do viver, o que torna mais leve a própria vida e, por consequência, a dos outros à nossa volta. É uma semente que só cresce no terreno de uma mente clara e equilibrada, que consegue se abstrair da rodinha de hamster de produção e consumo em que vivemos para enxergar além, com valores pautados em ética – o que nos dá possibilidade de fazer escolhas que trarão frutos desejados.

Para isso é preciso ousadia. Afinal, não é fácil sair da matrix, do modo piloto automático de viver, e ousar encarar a amplidão, e se questionar sobre as inúmeras escolhas que fazemos ou poderíamos fazer. Mas é essencial para reunirmos as ferramentas para construir a realidade que sonhamos, e não distorcer a realidade para ela se encaixar na nossa fantasia.


Agora, vamos pensar um pouco mais longe, e menos egoticamente: será que desse horizonte de visão ampliada o ser humano poderá evoluir para a tão necessária compaixão?

Fico imaginando que a compaixão dos espíritos evoluídos venha de sua “visão cósmica”; afinal, eles enxergam com tamanha amplitude que a essa distância todos os nossos erros, "falhas imperdoáveis", deslizes e dramas devem parecer mínimos – meros tropeços na jornada rumo ao autoaperfeiçoamento.

Atena nos fala há milênios…Talvez seja hora de parar e ouvir, não?